
Quando você discorda de uma ideia, produto — qualquer coisa, enfim –, existe, de modo amplo, duas atitudes a se tomar:
- Eliminar o seu adversário. Essa é uma atitude nada democrática, porque consiste em oprimir, por meio da força ou outro recurso, as formas do seu adversário se expressar. Exemplo: a bomba que foi colocada no prédio do jornal O Estado de S.Paulo durante a ditadura militar.
- Construir e disseminar uma alternativa. Para que essa plataforma dê certo, é preciso que a alternativa oferecida seja melhor. Pouco a pouco, as pessoas abandonam a ideia anterior. Exemplo: o Facebook que passou o Orkut em número de usuários no Brasil.
Diferentemente até da pichação de páginas de internet, o ataque de negação de serviço meramente derruba um site, sem dar aos internautas nenhuma alternativa, nenhuma outra mensagem. É uma tática puramente destrutiva. Não é comparável a uma passeata ou manifestação na rua, porque essas, pelo menos, têm cartazes que transmitem um recado, um pedido. A negação de serviço, como o próprio nome diz, apenas nega: é um “não”. Que “não”?
Esse modus operandi tem ainda mais uma vantagem: basta que os participantes do ataque discordem de alguém para realizá-lo. Eles não precisam, coletivamente, concordar com uma alternativa. Ou seja, em vez de concordar como algo deve ser feito, basta que eles concordem em como não deve ser feito.
Vamos deixar ao leitor a descoberta de quais serão os resultados dessa mentalidade meramente negativa.
Mas e o Megaupload? E os meus seriados e filmes?!
O Megaupload não deveria ter sido retirar do ar sem aviso prévio e no mínimo ter dado aos internautas um prazo para que recuperassem quaisquer arquivos que estavam hospedados por lá. Fim da questão. Houve um equívoco na forma que a ação da polícia e da “justiça” se conduziu.
Já a questão de direito autoral é muito forte. Produtos culturais não são como qualquer outro produto. Eles definem personalidade. Eles são assunto para comentar com os amigos. Ser privado de um produto cultural, ora disponível a nenhum prejuízo para seu criador, é como ser privado de parte da própria identidade.
É claro que isso gera revolta e denúncias de pura ganância por parte dos produtores – ou, melhor dizendo, dos representantes dos produtores -, principalmente quando estes nem trazem suas produções ao Brasil e recebem legendas de fãs da série que fazem questão de divulgar o trabalho.
Mas a solução para esse problema não está em manter o Megaupload no ar — até porque isso não é necessário, já que existem muitas alternativas e, além disso, para isso é preciso mudar as leis. Tem um caminho mais simples: se faz parte da sua personalidade acreditar no download, no poder da distribuição da cultura livre, das redes ponto a ponto, ora, procure criadores e artistas que concordem com você. Existem centenas de bandas disponibilizando MP3 e CDs de graça na internet, às vezes até em altíssima qualidade. Existem documentários sendo distribuídos de graça na internet.
Tem um monte de filmes no Archive.org. Várias bandas e artistas no Bandcamp. E todo tipo de conteúdo no tracker BitTorrent ClearBits. Nem preciso falar do Tramavirtual.
O verdadeiro poder da internet não está em permitir o consumo gratuito daquilo que os próprios distribuidores não querem que você veja, mas sim em dar voz a todos os pequenos artistas que querem muito a sua atenção, sem cobrar por isso.
Que tal essa ideia? Mostrar aos artistas que a distribuição gratuita de conteúdo faz com que eles ganhem fãs e simpatia é a melhor forma de encorajar muitos outros a fazerem o mesmo. Para aqueles que merecem uns trocados, sempre vale dar alguns. Quem não quer ser visto, que não seja – que afoguem na irrelevância. Dar valor a quem quer ser ouvido é melhor do que clamar pela liberdade daquilo que quer se restringir.
Escrito por Altieres Rohr
Retirado de Linha Defensiva







Entrar
Cadastre-se








